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Medo de rejeição ... ou do ridículo?

Pela terceira vez estou com dificuldade de iniciar esse artigo, mas conforme dizem o texto flui no momento em que nos implicamos de escrever sobre a inércia. Há um assunto produzindo ainda muita ansiedade em minha mente: A hipótese de enfrentar algum deboche sobre qualquer situação em específico. O escárnio me incomoda, e estar entre pessoas que devido a sua autocrítica enxerga o próximo como adversário e precisa usar de deboche para se sentir bem consigo próprio me faz implodir de raiva. Às vezes, nem é questão de ser o alvo do ridículo que me incomoda, mas a desumanização das interações sociais que transformam as pessoas em peças de um jogo doentio de competitividade, sobremodo a criar o ensejo de aferir comportamentos agressivos uns sobre os outros.
Vivemos em tempos em que o ridículo é a regra, a pessoa inteira não importa, apenas a sua oferta e procura. Tal comoção entendo como “neurose coletiva”, em que a qualidade da saúde mental dum ser-humano é relativo á valorização do que ela tem a oferecer e essa passa a exercer um papel cujo o seu uso obedece a finalidades e objetivos específicos.
Estamos falando de deboche afinal de contas, não de uma sociologia marxista, o que dizer sobre? Essa inquietação de certa forma despertou em mim a curiosidade de pesquisar sobre a palavra negritada, e convenhamos quando queremos entender um sentido por trás de um vocábulo, considero o melhor entender o seu uso prático, para isso recorri ao conceito do Dicionário Informal (Acessado em 2018, data não especificada) , que na síntese:
Diz-se de pessoa ou atitude ou circunstancia que se torna risível por levar ao exagero aquilo que é natural ou apropriado a determinada condição. Que provoca riso ou escárnio, grotesco.
Se estamos dialogando sobre deboche, tratamos então sobre a experiência do ridículo, conforme explicado anteriormente, é a apropriação de um fato que é elevado ao escárnio para que algo corriqueiro se torne risível. O que se pode inferir sobre esse conceito é que pessoas habituadas a usar de deboche frequentemente usam de sua autocrítica para exagerar algo comum, pois acrescentando um toque de criatividade em seu alvo de gozação, aquilo embora se apresente de forma distorcida, se torna cômico.
Vale ressaltar que a fila dos escarnecedores vira a esquina, principalmente em tempos como esses de grande incerteza política e econômica, é uma saída viável do sofrimento encontrar elementos cotidianos e transformá-lo num ridículo, principalmente se tu está agindo não esperando receber a chacota, as chances de tu ser exposto tende a crescer.
Dito isso, meu intuito está longe de ser um choramingué, mas o medo de ser exposto ao senso de humor subversivo que aponte ironia em sua linguagem, é de longe um fator que me provoca desdém em iniciar conversas com pessoas desconhecidas. Receio eu que  o nervosismo pode ser um fator subjetivo presente em todos, existem trabalhos intelectuais cujo o objetivo é discutir a facilidade da espécie humana em avaliar os riscos de perigo eminente e em utilizar a comunicação para obter a cooperação ao invés de memorizar um número de telefone ou uma fórmula que garante a resolução de uma operação matemática. Tudo isso acontece porquê há 80 000 anos atrás, o homo sapiens exterminou os neaderthais (que possuíam bons atributos físicos, mas ainda  não haviam desenvolvido a comunicação), alguns cientistas demarcam esse evento histórico como fruto da revolução cognitiva, porquê os descendentes da espécie homo sapiens desenvolveram técnicas para aprimorar a comunicação e obter cooperação dos seus semelhantes de tal maneira a obter vantagem sobre as suas caçadas ... Adiante eles desenvolveram a agricultura, a propriedade privada, e por fim os trabalhos que aperfeiçoaram o seu sistema de cooperação mútua ... Mas tudo isso só aconteceu graças ao que chamamos hoje de fofoca.
Podemos entendê-la como uma forma de  especular informações sobre alguém que não conhecemos para saber se ele pode contribuir com alguma atividade, por exemplo. Nesse processo, automaticamente utilizamos de rumores para levantar e apontar dados sobre esse candidato e realizar um levantamento se ele pode ou não se aproximar de nós, basicamente a fofoca durante os anos evoluiu e mudou de formato na medida em que se ampliou o desenvolvimento dos novos meios de comunicação, de modo a tornar o controle social ainda mais efetivo. Para entender melhor esse apontamento, vamos tentar refletir sobre a produção de vida das civilizações emergentes de 80 000 anos atrás: Por que alguém sendo um senhor de terras, deixaria um desconhecido se aproximar de sua família? Ou até cuidar de suas plantações, gados ...? Se considerarmos os tantos anos em que as sociedades produziram através de economia agrária, tanto mais tiveram em aprimorar a comunicação pra manter a cooperação de todos com atividades gerais, o quão avantajado será a capacidade de se comunicar e avaliar riscos se encontram mais desenvolvidos hoje tais habilidades se comparadas com a capacidade de processar informações complexas e realizar raciocínios intelectuais? Esse é o pulo do gato que  muitos cientistas cognitivos tentam investigar para compreender a mecânica do ser-humano inteligente
Ok, o que tudo isso tem a ver com o ridículo, medo de exposição, e enfim, a desejada quebra de paradigmas? Vamos considerar a nossa sociedade hoje, informatizada e  imersa na cultura do compartilhamento de dados, tais informações geradas pelo processo evolutivo tornam-se o seu alvo ou objetivo, algo que eu, você e os demais temos dificuldades de processar, mas temos altíssima capacidade de avaliar os demais, que conforme tratamos nos parágrafos anterior, é algo natural, por que não se encontraria o ridículo em um debate ou experiência cujo a reação natural seria o de estranhamento frente ao novo?
Se considerar que em uma roda de conversa somos atores e não peças, porquê achas que não receberá julgamento dos outros? Ou que em algum momento não sejamos rejeitado por expor alguma ideia nova? Às vezes, apenas somos vistos por algum rótulo produzidos em momentos de estranhamento, e não há problema se não nos reconhecermo-los logo ali.
Às vezes, nos é necessária muita coragem para atrever-se na aventura de investigar intelectualmente qualquer fenômeno, porquê é difícil romper com a produção cultural de nossos ancestrais e seguir trilhando a jornada pessoal. Algo que eu tenho comigo sobre o medo da exposição, do ridículo e enfim, de tudo que já falei, é não me apegar ao papel da vítima, por vários motivos:
1) julgamentos são inevitáveis;
2) Somos as pessoas mais corajosas por nos interessar em conhecer aquilo que nos é desconhecido, e se escolhemos expor isso num grupo cujo o objetivo é a troca de ideias e experiências, já somos vencedores por isso ...
3) Enxergar-se como uma vítima só garante que em qualquer situação seremos apanhados por lobos em pele de cordeiro, e ainda que decidimos escolher ser o lobo, supõe-se a possibilidade de existir um grande conflito não resolvido em nós, então seja em qualquer das situações o fato de saber o que estamos defendendo e não se desprezar por isso, nos garante que é possível manter o perigo sob alguma atuação ...
Então a mensagem que entrego através desse texto é que nosso pior inimigo nunca são os outros ou qualquer outra coisa, mas o nosso próprio vitimismo e apego temporal ao passado ...

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