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Sensibilidade ou Empatia? A dialética razão e emoção

“É preciso sermos como estrelas, por todos os lados .., uma visão sempre mais ampla, tal qual os olhos de águia”
Certa vez, alguém postou essa frase num grupo de discussão, em referência a meta do que devemos buscar em nossas vidas, outro participante da conversa, rebateu-o com o seguinte argumento:  
"Mas ... Águias não têm visão ampla ...  são predadoras ... possuem visão aguda ... Visão ampla têm os pombos (por exemplo) que são presas ... Precisamos ter ambas as visões ... amplos como as presas ... (para as nossas ações) ... aguda como os predadores ... (para as ações dos outros) ... É mais difícil ainda ...”
Eu, bocudo como nunca deixo de ser durante conversas por aí afora, comecei a digitar e me coloquei na conversa:
"Talvez devemos apenas confiar na intuição e deixar o Espírito humano tomar conta do resto ... Estava eu esses dias lendo um livro sobre raciocínio lógico, me abismei com o quanto falta atributos lógicos na mente natural em interação com a vida. Veja que a conversa corrente, por exemplo, trata-se de um comparativo da humanidade com relação a atributos animais, porém o que fazemos pra melhorar a atitude racional frente a vida? Entendo que ninguém nasce com os atributos mentais treinados e aperfeiçoados, é o preparo ao qual escolhemos para polir a nossa mente é que vai qualificar as nossas virtudes ... No caso da falta de racionalidade, é porquê não se treina a mente para pensar de forma lógica ... A reflexão que intento é apenas um despertar sobre o quanto damos um valor exagerado a sobrevivência animal sem ao menos buscar desenvolver os valores da alma ..."
E dado por finalizada tal conversa, fui respondido da seguinte forma: 
Em cada "combate" um desafio especifico ... Em cada "combatente" um desafio diferente ... Tudo muda o tempo todo .... incluindo a nós mesmos ... e o mundo à nossa volta ... Aos muito racionais, o desafio é serem mais sensíveis (emotivos?)... Aos muito emotivos, o desafio é serem mais racionais (frios?) ... E em todos o uso dos talentos pessoais é imprescindível ... E quando não temos os talentos requeridos? Aprendemos uns com os outros...
Esse diálogo despertou em mim profundos pensamentos a respeito de sensibilidade e racionalidade, refletir sobre os tópicos apontados durante a conversa pareceu-me importante, tal como o de seguir a vida conforme as possibilidades sem nos conformar com a inércia. Ao fazê-lo, assumimos o risco de dividir a mente em duas categorias binárias: emoções/sensibilidade e razão/intelecto, enquanto categorização sistemática da vida.  
Ao ter em perspectiva o direcionamento tomado durante a sequência da conversa, embora meu querido amigo em sua honestidade tenha colocado-se de maneira inteligível diante de todos que estavam nos acompanhando em nossas divagações, entendo que sim, a mente tem diversas facetas para expressar a subjetividade humana, porém me posiciono de forma contrária a colocação da sensibilidade enquanto uma qualidade de estabelecer boas interações com as próprias emoções e que viabilize expressá-las de maneira adaptativa ás nossas atividades cotidianas.
Um dos principais motivos para mim assumir tal posicionamento é que a palavra sensibilidade nos direciona a reatividade, ou seja, no lugar de atuarmos conscientemente em benefício aos que estão participando de uma situação específica, com espontaneidade e criatividade, passamos a se reduzir apenas a responder um estímulo, sem se colocar em jogo para mudar qualquer “algo” que lhe seja desagradável, vejamos por exemplo alguém que se sente ofendido (a) por qualquer provocação disparada, sem a devida compreensão até uma pessoa de boa racionalidade pode muito bem externalizar sua raiva de forma a ser incompreendida pelos demais, caso ela for sensível em reagir facilmente a esse sentimento. Enquanto com a empatia, a pessoa compreende, se conecta com o outro e consegue ter sucesso na identificação das emoções, seja quando o outro e ela própria sentem isso. Empatia só desenvolvemos quando convivemos com as pessoas em geral, a partir do momento em que reconhecemos nossos próprios limites pessoais (quando algo nos incomoda, intuitivamente não vamos fazer isso com os outros, porque nosso incômodo já é o suficiente para nos refrear assim que alguém nos aborrece, desse modo nos sentimos seguros em alertar o importuno, porque as vezes o outro simplesmente não tem culpa de você se irritar com algo que é seu ...). Meu esforço com o presente escrito é demonstrar que a empatia envolve um processo de dupla via, por isso se desenvolve, assim como a racionalidade, enquanto a sensibilidade/reatividade aos estímulos do mundo é inerente ao ser-humano ... um bebê se sensibiliza com o frio, chora quando está com fome ... mas ele só aprende a andar e a falar quando entra em contato com a mãe e família...
Enfim, são reflexões que durante um tempo tive enquanto pensava na dialética sobre razão/emoção exposta durante a conversa, aproveito para perguntar-lhe, o que fazer para desenvolver tal habilidade se cada pessoa é única em sua forma de experimentar o mundo? Se estamos cientes de tal colocação, representa que já somos empáticos por disposição, a grande questão aqui é se colocar em posição de entender o outro partindo de uma vinculação pessoal com ele. Para conseguir entendê-lo, é necessário ouvi-lo numa posição de observador participante, sem julgamentos, expectativas ou reclamações, apenas se entregar a experiência do contato humano, as respostas fluem como resultado de seu desfrute ao encontro. É uma dimensão bem interessante de se viver e refletir!

Comentários

  1. Incrível seu texto . Algumas partes me fizeram lembrar do livro de Gurdjieff- Em busca do ser

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    Respostas
    1. Obrigado Guilherme, bom que gostou.

      Me informarei mais a respeito da obra.

      Abraços !!!

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